Mais fotos… e uma reflexão.
Acho que vou alternar entre artigos e fotos, que acham?
Além das fotos, gostaria de compartilhar uma reflexão com vocês.
Quando estive na Itália, vi obras magníficas produzidas por nomes incontestáveis como Da Vinci, Michelangelo, Andrea Pozzo, Filippo Brunelleschi e tantos outros. Há algo em comum entre estes gênios: eles dedicavam-se integralmente às suas obras.
Eram seres capazes de ficar anos e anos em um projeto, aturando reclamação de seus clientes, sim, estes artistas tinham clientes assim como nós, não faziam arte pela arte. Exatamente como acontece com cada um aqui, eles tinham que pagar contas, comer e tudo mais. Os clientes eram mecenas, banqueiros, a igreja, entre outros, e que estipulavam prazos irritantes, pagavam menos que o merecido e ainda atrasavam, assim como acontece hoje.
Mas estes nobres nomes que citei, entre outros, nos deixaram uma herança maravilhosa, com grandes descobertas, novas técnicas, outras formas de ver e de pensar.
Daí a reflexão que quero deixar. E nós, faremos o mesmo? Iremos além da mediocridade e deixaremos algo de real valor para as próximas gerações? Pensaremos além do óbvio, produziremos além do banal? Seremos nós capazes de nos colocar em longos e sacrificados projetos, com pouco dinheiro e reclamações o tempo todo, para assim conseguirmos construir algo que tenha valor para o ser humano?
É para pensar. Seguem fotos que ilustram um pouco do que vi por lá.
[]’s
Armando Vernaglia Jr
Site - www.vernaglia.com.br
Blog - blog.vernaglia.com.br
Flickr - www.flickr.com/armandovernaglia/
Videos - www.vimeo.com/vernaglia/




Olá Armando,
Muita boa a puxada por essa reflexão.
Como debatemos em aula, não conheço casos semelhantes na fotografia, mas sim no cinema.
Temos obras fantásticas, recentes, cujos projetos podem ter durado mais de 5 anos…
O mesmo se aplica a medicina, a física e à maioria das ciências.
Projetos como o Hubble e a Cura do câncer, demoram décadas e envolvem centenas de pessoas. No caso da busca da cura do câncer, podemos falar em milhares de cientistas em mais de 5 décadas de trabalho !
Grande abraço
Pierre
Olá Pierre,
De fato minha idéia foi ampliar a discussão da aula puxando o assunto aqui no blog.
Concordo com você nas questões científicas, é verdade, cientistas são pessoas diferenciadas, as buscas que fazem geram benefício coletivo em escala global, e isso é fundamental.
Mas me pego na questão das artes, no cinema e no teatro vejo essa atitude, de abdicar de um monte de coisas em função de um determinado projeto, atores e produtores muitas vezes bancam um peça ou um filme do próprio bolso por gostarem do projeto, do texto etc.
Mas na fotografia isso me parece tão distante, sempre encontraremos nomes, Araquém Alcântara, Sebastião Salgado, só para citar dois brasileiros famosos que dedicam uma vida a projetos consistentes e com objetivos nítidos.
Mas isso é 1 em cada 1.000.000… a maioria que hoje começa na fotografia não tem nem no pensamento mais distante a idéia de fazer algo pela arte, de renovar a fotografia em seus métodos, em sua estética,em sua mensagem e significado.
Quando olhamos hoje um Flickr ou qualquer site semelhante, há uma infinidade de gente fotografando, milhões ao redor do mundo, todos apertando botões freneticamente sem pensar no que estão fazendo, no que querem dizer com suas fotos, no aprofundamento da técnica e da expressão, não tem nada, são milhões e milhões de fotos vazias, bobas, repetições de coisas já feitas.
E sobre isso quero que haja reflexão, e principalmente, atitude de mudança. Quem sabe.
[]’s
Armando Vernaglia Jr
Armando, muito bom o texto!
Só tenho dois comentários a fazer e um deles não diz muito a respeito do texto, e sim, sobre o ultimo comentário que você fez sobre flickr e sites semelhantes, vou começar por ele e depois retomo ao assunto do texto.
Ao meu ver, sites como o flickr são meros repositores de imagens pessoais. Vai ser difícil encontrar algo ali que seja mais trabalhado. Apesar de ter algumas coisas legais tbm. O que eu acho legal nesses sites é a comunidade que se forma em torno de um assunto, que nesse caso é a fotografia, e junta gente q tira fotos de “turminha” com o celular até um fotógrafo profissional que expõe o seu trabalho ali. Mas isso é assunto para outro post. rsrs.
Voltando ao tema do texto, eu acho que hoje em dia, são raras as exceções que não executam um trabalho pensando em seu retorno a curto prazo, principalmente o financeiro. É mais fácil fazer uma coisa medíocre e ser bem remunerado por ela do que tentar fazer uma coisa diferente, que tenha um valor, um significado e contribua para a evolução profissional e/ou pessoal do próximo. Os vídeos mais vistos do youtube e a grande audiência de programas como big brother refletem isso, porque de outro lado não temos questionamentos nem crítica, engolimos tudo o que dizem pra gente. Vejo atitudes desse tipo na maioria dos profissionais e empresas que passei até agora, para que vamos nos esforçar a ponto de construir uma coisa relevante de verdade se o cliente vai pagar a mesma quantia no fim das contas?? Aí vai da consciência de cada um, porque tenho certeza de que, quem tem capacidade pra fazer coisas boas, sabe que a tem… basta querer continuar a fazer coisas medíocres, ou não…
De qq maneira, é um bom convite a reflexão.
Abs,
JP!!
Oi Armando, interessante o seu questionamento.
Eu quando me propus a mudar meu rumo profissional tomei como idéia que não adianta trabalhar em numa área rentável, porém com pouco prazer, ou seja, a minha ocupação hoje não me atende plenamente, pois meus ganhos são bons, mas minha qualidade de vida está ficando prejudicada pois o trabalho não me traz prazer. Descobri na fotografia (estou em processo de transição de profissão) uma paixão, fui bastante questionado por pessoas próximas que não enxergavam na fotografia uma profissão, mas hoje estas pessoas compreenderam que não adianta eu ter dinheiro mas não ter felicidade. No caso do seu texto e dos gênios citados, creio que todos amavam sua profissão e com isso todos os obstáculos citados eram minimizados. Não espero ser glorificado por meu trabalho como fotografo, no entanto espero ser reconhecido por causa dele e quem sabe proporcionar as futuras gerações o que eles nos proporcionam hoje.
Abraço
Adriano
Olá pessoal, legal ver o rumo que essa reflexão está tomando, gostei das opiniões.
JP, vamos pensar no seguinte, tudo bem que Flickr e semelhantes são sites repositórios e que juntam de tudo, mas se eu lembrar dos álbuns de fotos do meu pai, com sua velha minolta e rolos e mais rolos de filme cromo, reunindo a família no final de semana em volta de um projetor e uma tela. Se eu postar as fotos do meu pai, que sempre foi um amador despretensioso na fotografia, ele baterá a qualidade de pelo menos metade dos que se dizem profissionais por aí, e como eu disse, ele não tinha pretensão nenhuma com a fotografia além do registro de viagens, família, festas etc. Mas queria ter essas memórias com qualidade, com durabilidade, hoje nem isso as pessoas querem, a própria memória, a vida de cada um está de tal forma deixada de lado que esta geração corre o risco de ficar simplesmente sem memória visual, ao contrário daqueles que viveram as décadas de 50, 60 e 70, ou mesmo 80, que deixaram uma memória visual rica. E veja que não estou falando de arte agora, só de memória e registro mesmo.
E o ponto mesmo é a frase do final do seu comentário “basta querer continuar a fazer coisas medíocres, ou não…” parece que muitos, mas muitos mesmo, se satisfazem em produzir mediocridade, e isso é muito triste. Eu chamo isso de “vitória do movimento punk”… é uma fotografia punk, feita de qualquer jeito, “just for fun”… e sem reflexão, sem profundidade sem nada.
Abração,
Armando
www.vernaglia.com.br
ps.: Adriano, já posto resposta ao seu comentário logo abaixo.
Pois é Adriano, conforme conversamos antes pelo Papo do Blog, essa questão do trabalho trazer prazer é algo complexo, relativo para dizer o mínimo… eu tenho inúmeras fontes de estresse sendo fotógrafo profissional, da mesma forma que qualquer outra profissão… a ponte de sempre ter que ter um hobby pois a fotografia perde boa parte do seu encanto quando temos que pagar contas, brigar com clientes, aguentar prazos medonhos, brigar por orçamentos entre tantas outras coisas…
Mas continuo pesquisando, estudando, querendo evoluir e de fato evoluindo a cada dia, e o que me move é a idéia de desenvolver coisas novas, fazer o que ninguém faz, literalmente criar algo, seja com fotografia, design, direção de arte ou o que for… não me importa, estudo de tudo, pesquiso de tudo… não é questão de ser glorificado, mas de satisfazer minha necessidade interna de pesquisar e produzir, aprender e colocar para fora… não é prazer do trabalho, mas o prazer da descoberta, do pioneirismo, o trabalho não é prazeiroso, ele paga minhas contas e me permite ser o pesquisador que sou, me permite desbravar nosvos terrenos pois me dá sustento financeiro… mas são coisas distintas…
E esse ponto, de desbravar, criar, pensar e repensar a fotografia filosoficamente, sua mensagem, sua importância, não vejo muita gente fazendo, são raros… e isso é triste, muito triste.
A fotografia se tornou algo banal, todo mundo faz e qualquer um compra qualquer lixo, se não houver pensadores, gente disposta a usar o cérebro e negar a banalidade, não aceitar a mediocridade… eu tento impor minha visão aos clientes a todo custo, perco horas em reuniões discutindo e explicando coisas para ver se entendem, muitos aceitam e aí consigo espaço para aplicar minhas pesquisas no trabalho, mas veja, tenho 15 anos de carreira e hoje consigo impor alguma coisa… essa galera que entra no mercado hoje nem quer estudar, então vão impor o que? Se só sabem coisas banais…
É para pensar… e como foi dito pelo JP no comentário acima, é questão das pessoas quererem ou não a mediocridade, que para muita gente parece aceitável, mas eu sinceramente não entendo.
[]’s
Armando
www.vernaglia.com.br
Ola Armando, gostei da proposta…
Acredito que mtas pessoas hoje nao sao felizes porque o dinheiro e o retorno ilusorio que ele passa eh mto forte. Digo ilusorio porque, se alguem se propoe a fazer algo mediocre acreditando que vai ou esta sendo bem remunerado por isso, coitado…..
Admiro pessoas que fazem da profissao uma extensao da vida, passam alegria, vida, dor, lagrimas, miseria ou fome, mas na virada da esquina Destino com avenida da Luz lah esta o predio do Sucesso s/n…
Grandes mestres do passado moram neste endereco, muitos tentam imita-los, tentam mudar errando, provocando o surreal e a ignorancia da maioria dos ignorantes….
Eu sou do time que acredita em quem errou muito, jah foi trouxa por muito tempo, que anda pelo caminho da LUZ e nao tem medo de dar a cara para bater. Cada um eh livre e poe a cabeca a noite no travesseiro para dormir, entao, bons sonhos…
Se sai do contexto pode malhar, mas de leve que sou de vidro…rs,rs!!!
Forte abraco!!!
Olá Nilton, veja, não tenho nada contra o dinheiro, acho mais que as pessoas devem querer tê-lo pois é com ele que obtemos algum conforto, o que comemos, o que vestimos etc.
O ponto central, para mim, é o comportamento que você mesmo citou, de fazer algo mediocre e se sentir bem com isso já que está ganhando algum dinheiro.
Abração, apareça sempre.
[]’s
Armando
www.vernaglia.com.br
Nossa, que bom que a reflexão rendeu…
Só gostaria de fazer um mais um adendo a discussão, e é uma coisa que me deixa profundamente chateado e descontente, tem a ver com a mediocridade, aqui discutida.
Hoje recebi um trabalho e um prazo apertado, fui pedir mais prazo, pq o trabalho não dava para ser executado no tempo proposto, argumentei que para fazer uma coisa de qualidade precisava de mais tempo, consegui convencer que realmente precisava de mais tempo, sabe qual foi a decisão final?? Ah, faz qualquer coisa, mas entrega! Me desculpem o palavrão, mas porra, fazer qualquer coisa?? Fico bem chateado de saber que sou contratado para fazer “qualquer coisa”, faz perder o tesão… mas é assim o mundo corporativo né? Até quando será que aguentamos?
[]s
JP!!
Agora me deu um frio na barriga, explico:
As pessoas estudam, se profissionalizam, trabalham em estudios e editoras no exterior, adquirem muita experiencia e tecnicas que sao passadas as novas geracoes, e na hora do vamos ver, algumas vezes esses profissionais sao tratados ou taxados como um principiante com piniquinho na mao….
Argumentos nao faltam, mas no final das contas o que vai pesar eh o pagamento na conta do banco, independente do servico “apertado” .
Eu moro em um pais no qual as tres coisas mais importantes sao, Trabalho, Realizar o Trabalho e Trabalhar….Familia e Saude nao entra na pauta para quem quer ser alguma “coisinha”, sim somos bem remunerados, mas isso tambem eh ser Muuuiitooo Mediocre, p/quem eh do ocidente….
Mas o conceito eh o mesmo, nao desistir JAMAIS!!
Abracos!!
Olá pessoal, JP, Nilton, muito interessantes os relatos.
JP, sobre o que você falou, acontece comigo, outro dia eu estava fechando o design de um material para um cliente, passou aprovado por toda a diretoria até que chegou no dono da empresa que disse: “troca o a cor X pela cor Y”… para tudo, soem os alarmes! Pera aí, expliquei por A B o por que da cor, citei gestalt, construtivismo russo, teorias de cor e de design, e mais alguma coisa… para ouvir como resposta “tá, mas eu não tolero a cor X, troca pela Y”… cara, é desanimador você ver que toda a ciência é substituída por alguém não tolerar uma cor… fiz o meu melhor, tá até bonito o resultado final, mas não é o melhor por que não está com a cor que deveria… vou ganhar meu dinheiro e fiz o que o cliente queria, mas não consigo me conformar, não consigo achar que está tudo bem. Só que também não posso fazer do meu jeito ou dizer não e ficar sem o dinheiro, é cruel isso, e acontece mesmo.
O que eu tiro disso? Tá bom, vou pegar o dinheiro e usar ele para fazer algo que eu goste e tentar assim compensar, é o que resta a fazer num caso desses.
Nilton, disse tudo, não desistir jamais, é por isso que eu ainda sou fotógrafo depois de 15 anos de carreira e ter acumulado N histórias desagradáveis que fariam a maioria desistir.
Talvez conseguir sobreviver a essa “imposição de mediocridade”, vamos chamar assim, faça alguma diferença no final, mas temos que sobreviver inconformados, por que no dia em que nos conformarmos com isso, aí deixaremos de produzir algo meíocre para sermos algo medíocre, o que é bem pior.
Hoje, tanto tempo passado, eu consigo impor minha visão em muitos trabalhos, isso é muito bom, mas ainda acontece como o que citei acima, e aí não tem o que fazer, a não ser o melhor que for possível.
[]’s
Armando Vernaglia Jr