A Porta dos Fundos do Mercado
Algumas pessoas talvez se ofendam com este texto, mas digo que minha intenção é a de causar reflexão. No artigo passado tratei do que considero o caminho certo para entrar no mercado, a porta da frente, neste falarei do jeito errado, adotado pela maioria.
Hoje todo mundo pode ser fotógrafo, basta comprar uma câmera. Após esse simples passo é questão de achar tutoriais na internet, perguntar alguma coisa para alguém disponível, quem sabe ler uma revista e pronto, é só sair por aí dividindo com o mundo suas visões únicas obtidas com sua nova máquina digital de “trocentos” megapixels.
Em tempos de crise na indústria o processo se intensifica, pois muitas pessoas perdem o emprego e na urgência de conseguir ganhos financeiros abraçam profissões livres, artísticas e não muito regulamentadas, como fotografia, ilustração e design.
É tudo fácil e simples no admirável mundo novo das tecnologias digitais e do moderno limpa tudo chamado photoshop. Se não souber usar o photoshop basta ajustar um bom discurso e dizer que aquilo é seu estilo, sua arte, sua visão e deixar assim mesmo, cheio de defeitos e falar que é proposital.
A foto saiu escura? Tremida? Tudo bem, converta para preto e branco que fica ótimo, se está fora de foco coloque bem pequena na página que ninguém irá reparar. Composição mal feita e sem harmonia? Sem problemas, corta um pouco daqui, um tanto dali, aproveita só um pedacinho da foto e pronto, tem “trocentos” megapixels para isso mesmo. Estudar e fazer tudo do jeito certo? De jeito nenhum, curso demora e custa caro.
Ironia? Não, é o retrato fiel do mercado em que qualquer um se diz fotógrafo e todo lixo é chamado de fotografia, pior, é chamado de arte. Para as dores póstumas de gênios como Bresson, Doisneau, Man Ray, Halsman, Brandt, Munkacsi e outros.
Devo dizer, cortando a alegria de muitos, que não, essa montanha de gente no mercado se dizendo fotógrafos não o são, não merecem este título e não tem o direito de exercer essa profissão. Deveriam ser processados por jogarem o dinheiro dos clientes no lixo.
A cada um que neste momento pensa em ser fotógrafo, estude, pesquise, compre livros, faça cursos. Se for autodidata, seja um pesquisador incansável em busca de imagens realmente valiosas, que engrandecem o ser humano. Faça por merecer o título de fotógrafo, respeite essa profissão que já teve nomes tão nobres e inspirados como os que citei acima.
Respeite também seus clientes, eles pagam suas contas e não merecem receber disfarces feitos no photoshop de fotos mal feitas.
Alguns vão dizer que ando rabugento, reclamo de tudo, mas cheguei à conclusão de que se ninguém falar, muitos vão continuar achando que estão fazendo o certo, de que é normal comprar uma câmera, estudar um pouquinho e sair por aí dizendo que é profissional. Imagine se eu fizesse um curso básico sobre anatomia e saísse por aí dizendo que sou médico. Espero que alguém leia, reflita e opte por fazer as coisas do jeito certo, com estudo profundo, respeito e dedicação.
E lembrando: a todos que investem nos estudos, compram livros, pesquisam, visitam museus para ver e entender arte em todas as formas, participam ativamente de listas de discussão e fóruns ajudando e sendo ajudado, que esperam para estar prontos, com boa técnica, bom repertório artístico e estético antes de se colocarem no mercado, este texto não é para vocês.
Nos vemos em breve, a periodicidade quinzenal acaba de ser abolida. =^)
[]’s
Armando Vernaglia Jr
Site - www.vernaglia.com.br
Blog - blog.vernaglia.com.br
Flickr - www.flickr.com/armandovernaglia/
Videos - www.vimeo.com/vernaglia/
ps.: ilustro este texto com uma foto que fiz na cidade de Firenze, aqui conhecida como Florença, Itália.

Vernaglia,
Seu texto vem em um momento certo da minha vida. Estou cada vez mais inserido dentro deste contexto do “estudar” a fotografia. Procuro em sites, leio novidades, busco referências, enfim, quero mesmo buscar o meu estilo, a minha fotografia.
O certo e o errado? Não sei. Não sou ninguém para julgar, mas sem dúvida, exercitar e praticar, garante o exito.
Abraços
Eduardo Chaves
www.fotocolagem.blogspot.com
Ótimo texto, como sempre Armando.
Depois, com mais calma vou te escrever um email.
Abs
Danilo
Mais uma vez um belíssimo texto. Gostei muito da comparação com um médico estudar apenas anatomia, talvez a diferença aqui é que muitas pessoas são leigas na fotografia e qualquer um com uma boa câmera acaba se passando por fotógrafo. Talvez poucos dos que realmente precisam ler esse texto o farão, mas se uma minoria já for conscientizada parte do objetivo será alcançado.
Parabéns
Meus sinceros parabens pelo maravilhoso texto… sensacional…. retrata a realidade da fotografia mundial…. o que é uma pena!
grande abraço!
Salve Vernaglia!
Otima colocacao sobre os “profissionais da porta dos fundos…” se me permite a deixa…rs!
Mas eu acredito que o brasileiro tenha o olhar mais treinado p/novelas, assistir a um DVD, quanto a “olhar” uma foto, p/a maioria nao estando desfocada tah boa, eh nessa faixa que muitos garimpam ora com competencia, ora com deslealdade….
Perdao pela grafia, meu teclado eh configurado em
japones…(’x')
Saude e Paz, abracos!!
Olá pessoal, obrigado pelos comentários. O problema é que a porta dos fundos é mais movimentada que a porta da frente no nosso mercado. Ainda teve gente que me escreveu classificando o texto sobre a porta da frente como piada… ainda tem gente que acha que é só comprar câmera e sair por aí vendendo lixo.
Como falta cultura, tem gente que compra lixo e acha que fez bom negócio.
Fotografia é algo sério… mas não é levada a sério pela maioria. Vocês que entendem o que é certo e o que é errado, são minoria.
[]’s
Armando
Grande Mestre Armando,
Ótimo texto. Concordo em 100% com tudo que foi escrito, mas fico preocupado com uma possível frustração sua num futuro próximo.
Infelizmente, acho difícil essa conscientização por parte do “profissional”, pois aqui no Brasil todo mundo gosta de levar vantagem em tudo.
Acho que isso deveria partir dos clientes, pois esses sim têm uma parcela de culpa bem maior nisso tudo, pois eles alimentam esse “mercado”.
Se ninguém pagasse por esse lixo, isso ainda existiria??
Só continunando com a reflexão…
Olá Rodrigo, obrigado pelo comentário.
Acho que a mudança deveria começar em várias frentes:
- profissionais devem prezar pela ética, respeito, profissionalismo, respeito aos seus pares profissionais etc;
- clientes devem prezar pela qualidade, pela imagem das marcas que representam e pela forma como boa fotografia ajuda a movimentar essas marcas, isso tem valor, e eles deveriam entender;
- escolas deveriam ensinar isso desde cedo, mas vejo professores de publicidade ou relações públicas dizendo para alunos buscarem imagens na internet em bancos free, vejo professores de fotografia que não falam nada sobre ética ou sobre como cobrar, enfim, a academia está morta no Brasil, não se ensina nada do que importa, só ensinam a apertar botão…
Enfim, temos 3 frentes para mudar, profissionais, clientes e escolas, para dizer o mínimo.
Aliás, sem mudança nas escolas, em qualquer área ou assunto, esse país nunca andará para frente.
[]’s
Armando Vernaglia Jr
Parabéns pelos 2 posts: A Porta da Frente/ Fundos do Mercado – a minha opinião é que falta uma consciência generalizada pelo “aprendiz” e as “empresas”.
Começando pelo profissional desqualificado, seja ele um Fotógrafo de cyber-shot, um Design de Corel ou mesmo um Publicitário que se inspira nas revistinhas auto-ajuda das bancas (ah, também assiste O Aprendiz rs.). Preconceitos à parte, não tenho nada contra estas marcas, máquinas ou software. O fato é que estes profissionais deveriam percorrer todas as etapas da evolução profissional (incluindo também a acadêmica, pelo menos a faculdade) para poder exercer a profissão somente quando atingir a maturidade. Enquanto isso, realmente existe estágios e outras formas de crescimento que não precisa se envolver diretamente com o cliente ou em posições que exijam alta responsabilidade.
Por outro lado, existe uma ganância por parte das empresas, reforçada pela anti-cultura que investir em comunicação é gasto, que se sujeitam a sujar as suas marcas com profissionais não qualificados para tentar economizar.
A experiência final é uma grande bola de neve negativa, porque as empresas acabam desvalorizando o trabalho de um profissional com base na experiência negativa. O profissional desqualificado não terá a competência de identificar a necessidade e propor soluções claras, por fim acaba perdendo o seu tempo, desagrada o cliente e ainda nivela seus colegas profissionais por baixo. Buscamos cada vez mais a formação, o conhecimento técnico e outros valores para impor práticas e preços justos ao mercado. No final das contas, quem sai perdendo é o cliente e o profissional competente, porque o que sobra é um mercado estragado para ele tentar consertar porque precisa sobreviver.
Pois é Daniel, e essa bola de neve negativa onde profissionais ruins oferecem qualquer lixo para clientes que não querem qualidade, só custo baixo, num país que não tem cultura visual para sequer saber separar o bom do ruim… fica a pergunta, isso tem salvação?
Há uma maneira de contornar esse problema todo? Existe um jeito de educar clientes? Existe um jeito de criar cultura visual onde não existe? Existe um jeito de valorizar profissões dentro desse contexto todo? Não sei não, mas não gosto das respostas para essas minhas perguntas…
[]’s
Armando
www.vernaglia.com.br
[…] Ps.: pra quem pretende entrar no mercado, recomendo: “A Porta da Frente” e “dos Fundos do Mercado”. […]