Arquivo de Fevereiro de 2009

Fotógrafo tem Nome

Existe um fenômeno irritante que parece ter piorado de uns tempos para cá, você pode constatá-lo ao folhear as principais revistas e jornais brasileiros, bem como publicações menores e menos importantes.

Em um primeiro momento temos a impressão de que existe um fotógrafo quase milagroso, que consegue publicar fotos das mais diversas, nas mais diferentes pautas e em todas as publicações. Seu nome: Divulgação.

Mas espere um pouco, desde quando divulgação é nome?

Acontece com uma freqüência absurda. Que uma vez ou outra, na correria do fechamento de uma publicação, não consigam descobrir o nome do autor de uma foto e resolvam colocar o famigerado “divulgação” eu tento entender, mas acontece em quase metade das fotos publicadas, o que mostra na verdade um tremendo desrespeito.

Além de anti-ético, essa atitude é ilegal. O crédito ao autor da imagem é uma obrigação de quem publica, não apenas um direito do fotógrafo. O mesmo vale para ilustradores e cinegrafistas.

Eu não trabalho com fotojornalismo e quase nunca para editoriais em revistas, mas tenho diversos amigos nessas áreas. Constantemente os vejo reclamando que alguma foto saiu com destaque em algum lugar mas sem os créditos.

Por medo de perder o já escasso ganha pão a maioria não briga por seus direitos e não processa os publicadores, estes por sua vez, mesmo cientes das obrigações legais, mantêm-se confortáveis pois sabem que os fotógrafos precisam do trabalho.

No mercado publicitário, com o qual convivo diariamente, é raro haver algum crédito ao fotógrafo, mas aqui há uma explicação plausível. De forma geral uma campanha não é fruto de uma pessoa, mas de um processo criativo que envolve diretor de arte, redator, assistente, produtor, designer, fotógrafo e logicamente o cliente. Uma campanha é um produto coletivo e leva a assinatura da agência que reuniu toda a equipe.

É bom que se diga que em alguns trabalhos do mercado publicitário deveria haver crédito, pois existem peças e campanhas totalmente centradas na fotografia. Pelo menos não usam o famoso “divulgação”.

De volta ao mundo editorial, outro fator importante é que notícia com foto tem maior índice de leitura e atenção do que as publicadas apenas com texto, assim como uma nota de imprensa com foto é sempre um trunfo para as assessorias quando chega a hora de cobrar valores maiores de seus clientes. Por esses motivos passou da hora de valorizarem e creditarem os fornecedores de algo com tamanha importância.

Inicio aqui uma campanha: Fotógrafo tem nome e não é divulgação.

Aos amigos leitores, fotógrafos, especialmente os de jornalismo e editoriais, fiquem à vontade para usar o slogan acima, ou este texto inteiro se acharem útil, pois de alguma forma esse péssimo costume de não creditar os autores terá de parar.

Nos vemos em 15 dias.
[]’s
Armando Vernaglia Jr
www.vernaglia.com.br
www.flickr.com/photos/armandovernaglia
www.vimeo.com/vernaglia/videos

Auditório Ibirapuera, por Armando Vernaglia Jr - Auditório Ibirapuera, projeto de Oscar Niemeyer

Ética

Faz tempo que ensaio um texto sobre ética mas duas considerações atrasavam a idéia. Uma era o pensamento de que tudo que havia para ser escrito sobre esse tema já o tinha sido, e outra é que em geral meus predecessores neste assunto tinham infinitamente mais preparo filosófico do que eu e portanto escreveram com mais propriedade.

Embora eu continue não sendo um filósofo (nem de longe), tenho visto tantos casos de falta de ética que conclui definitivamente sobre a necessidade de escrever sobre o tema.

Vou apresentar um exemplo que sozinho carrega tudo o que quero dizer sobre este tema.

Recentemente processei uma empresa que roubou fotos de minha autoria e que estavam no site de um cliente meu. Aqui temos um grande exemplo de falta de ética, afinal um concorrente roubar material do outro para promover os próprios serviços é lamentável, difícil de achar adjetivos para isso.

O caso continua pois ao mover o processo tive que ficar frente a frente com os ladrões em uma audiência no tribunal. A defesa da empresa que roubou alegou que eu não era o autor das fotos, e sim que elas tinham sido feitas por uma “profissional” e a mesma testemunharia.

Imaginem alguém na minha frente dizendo que eu não fiz aquilo que eu podia facilmente provar que tinha feito, e também diante de uma autoridade do poder judiciário.

Entra na sala de audiência a “fotógrafa” elencada como testemunha para dizer que as fotos eram de autoria dela. O interessante é que eu tinha testemunhas (cliente, assistente e outros), contrato, arquivos originais e tudo mais que ela não tinha.

De tantas demonstrações de falta de ética que já presenciei, esta foi das maiores e mais bizarras. Como alguém que se diz profissional de fotografia chega ao ponto de ir contra outro de sua classe utilizando-se de mentira em um tribunal?

O fato é que ao ser questionada fortemente pela juíza sobre alguns detalhes do trabalho e ao ser advertida de que mentir em um tribunal pode render algum tempo na cadeia, a “fotógrafa” tratou de voltar atrás e dizer que não era a autora. Ela deixou o local calada e envergonhada. Nunca saberei os motivos dela, se financeiros ou por amizade a alguém da empresa, o fato é que nada justifica.

O processo continua em andamento, já com sentença favorável a mim mas aguardando as infinitas possibilidades de recurso que nossa justiça prevê.

Este é um caso, tenho outros. Outras duas empresas já roubaram fotos minhas, fotógrafos copiaram textos deste blog e o apresentaram como artigos próprios, fotos minhas já foram plagiadas sem a menor menção de que fossem inspiradas em meu trabalho e assim vai indo.

Devo dizer que eu ficaria honrado com a menção de ter sido o influenciador de um trabalho. Assim como fico feliz toda vez que sou publicado em blogs sérios e devidamente creditado como autor. Mas muitos não optam por este caminho, apenas copiam e roubam como se isso fosse normal ou aceitável.

Ainda não citei todos os concorrentes que se disfarçam de clientes e mandam e-mails ou telefonam para meu estúdio tentando saber meu orçamento para algum trabalho. Se querem saber quanto eu cobro basta perguntar abertamente. Sempre ajudo alunos na montagem de orçamentos, faria o mesmo para um concorrente, não tenho problemas quanto a isso, mas os que sofrem da falta crônica de ética preferem adotar algum plano de sabotagem.

Nossa profissão carece de ética, de boas práticas profissionais, de respeito, de sentido de classe, de tantas coisas que às vezes penso mesmo que fotografia não é profissão, e sim apenas um trabalho que qualquer um faz, basta comprar uma câmera e sair dizendo que é fotógrafo, o mesmo vale para ilustradores, designers, cinegrafistas, publicitários e tantas profissões que sofrem de problemas semelhantes.

Espero estar enganado, que eu tenha apenas tido azar, mas algo me diz que não foi bem isso.

Nos vemos em 15 dias,

[]’s
Armando Vernaglia Jr
Perseu com a Cabeça de Medusa, de Benvenuto Cellini - Firenze, Italia

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