A Fotografia como Ferramenta da Comunicação
Vejo com freqüência pessoas dizerem e escreverem que a fotografia é uma arte, e nessas ocasiões pergunto se a pintura branca de uma parede também é ou se a fotografia feita para um documento em qualquer esquina é digna de figurar nas paredes dos melhores museus. Obviamente a resposta é não.
É possível fazer arte com a fotografia, mas não é o instrumento que torna o registro um objeto artístico, mas sim a mente, o repertório e a criatividade de quem opera o equipamento. Por isso eu digo sempre que a fotografia por si só não é nada, mas pode ser um universo inteiro.
Dessa miríade de coisas que a fotografia pode ser, antes da arte temos a poderosa ferramenta de comunicação. Aquela imagem feita de uma pessoa para estampar um documento pode ser indigna das galerias, mas cumpre com a função comunicativa, dando informações sobre a pessoa retratada, suas feições, cor de cabelo, olhos, pele etc.
É desse caráter informativo que falarei no texto de hoje, especialmente sob o prisma da comunicação, área do conhecimento humano sem a qual não seríamos o que somos hoje. Só temos a humanidade que temos por sabermos nos comunicar de forma ampla e complexa, e as imagens, especialmente a fotografia, têm grande papel nisso.
Se observarmos as faculdades instaladas no país, veremos que a área de comunicação social tem pelo menos três divisões comuns, jornalismo, publicidade e relações públicas, que são absolutamente diferentes em termos de conteúdo, mas que tem em comum o fato de empregarem a fotografia em larga escala. Vamos detalhar um pouco essa parte.
É impossível imaginar o jornalismo de hoje sem fotografias, elas entram para despertar atenção, acrescentar informações impossíveis de passar em texto e principalmente para dar o senso de veracidade, de que os fatos relatados aconteceram e foram testemunhados visualmente por um fotógrafo com sua câmera. O foto-jornalista é sempre uma testemunha dos fatos.
Na publicidade temos o outro extremo, onde a fotografia entra para vender sonhos e ideais, não se relaciona com a realidade, mas sim com imagens projetadas por marcas para que seus produtos sejam desejados e conseqüentemente possam ter bons números de vendas nas lojas. Se o jornalismo tem a intenção de informar, a publicidade está aí para vender.
Por fim a área de relações públicas, cujo nome indica sua função: relacionamento entre empresas e seus públicos, que podem ser investidores, imprensa, comunidade entre outros. Dentro deste contexto as fotografias são utilizadas em materiais institucionais com objetivo de informação e relacionamento, e não venda. Mas diferentemente do jornalismo, onde o discurso deve ser imparcial, nas relações públicas há parcialidade pois são os interesses de uma empresa (cliente) que estão sendo defendidos.
Há diferenças fundamentais entre as três áreas, e a produção fotográfica deve respeitar isso. Jornalismo não permite manipulação, os fatos devem ser mostrados como são pois é isso que se espera. A publicidade é um discurso parcial onde alguém mostra as principais virtudes de um produto e oculta seus defeitos para que seja vendido, cria atributos de personalidade para que pessoas se identifiquem com marcas e assim sigam consumindo produtos que lhe pareçam adequados aos seus ideais. A manipulação é permitida, a imagem trata de ideais e sonhos e não de realidade.
Nas relações públicas temos o meio termo, exatamente por se tratar de relacionamento (entre empresa e públicos), espera-se que não haverão mentiras pois estas são fonte de distúrbios em relacionamentos, a tolerância à manipulação é muito menor que na publicidade, mas maior do que no jornalismo devido à parcialidade do discurso.
Recentemente dei palestras sobre esse tema e vou aqui utilizar o mesmo exemplo dado nesses eventos: imagine um fotógrafo chamado a fotografar uma indústria. Se for voltado ao jornalismo, a imagem deverá ser feita do jeito que o fotógrafo encontrar o lugar, não importa se estiver sujo ou bagunçado. Quando o objetivo for comunicação institucional, como um folder ou site da empresa, o fotógrafo orientará a empresa para que limpe o chão, para que o funcionário arrume suas vestimentas ou troque por uma limpa, que sigam as normas de segurança. Haverá alguma manipulação, mas os fatos retratados não são uma mentira. Já na publicidade, um modelo será contratado para fazer o papel de funcionário, a máquina poderá ser uma réplica montada em estúdio e o cenário todo construído ou feito em um software de simulação tridimensional.
É um exemplo com alguns exageros, mas que mostra a diferença de linguagem entre essas áreas da comunicação. O fotógrafo e quem o contrata devem ter noção dessas diferenças para que a produção fotográfica seja adequada aos objetivos de comunicação, muito antes de pretender que o resultado seja ou não arte.
Não levar essas diferenças em consideração gera ruídos de comunicação diversos e problemas tanto para fotógrafos quanto para empresas contratantes, assunto do artigo da próxima quinzena. Nos vemos lá.
[]’s
Armando Vernaglia Junior
ps.: atualizem o endereço, agora o blog pode ser acessado pelo link http://blog.vernaglia.com.br =^)
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